quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Ciclos
Hoje, caminhando pelas ruas semi-iluminadas da Mooca, tive meu momento. "estou no caminho certo?" Falta pouco menos de 1 mês para eu me formar no curso que escolhi seguir em minha vida, pouco menos de 1 mês para eu falar de boca aberta "sou jornalista". Meu trabalho cada dia que passa me transforma em um melhor profissional, cada dia que passa tenho mais responsabilidades e mais histórias para contar. Minha família não teve mais grandes brigas, minha casa não presenciou mais grandes crises de choro. Meu grupo de amigos se afunilou e hoje os que estão dentro desse funil eu sei que posso contar para a mais tensa crise de tristeza e para o mais profundo ataque de riso, pessoas incondicionais que constroem cada dia meu presente e deixam uma confirmação mais do que verdadeira de meu futuro. E o coração?
O que vivi esses últimos meses deste ano? Paixões passageiras, sentimentalismos baratos e desnecessários, esperanças facilmente escondidas atrás de beijos falsos, desilusões tão rápidas quanto as novas conquistas. Foi e está sendo um ano atípico, perante os meus "namoros duradouros" que já permeei no passado. Hoje, não passam de miniséries amorosas de poucos capítulos.
Mas, há uma coisa que faz parte de minha essência e que jamais deixarei para trás: a vontade de ter uma história de amor eterna. Não, não espero pelo meu príncipe encantado em cima de um cavalo branco, já passei da época idealizadora. Apenas procuro alguém que me faça feliz, que eu o faça feliz e que juntos construamos um relacionamento saudável, baseado em amor, confiança e respeito.
Faz 4 dias que saio com um menino e estou me sentindo bem. Ele é esse príncipe encantado? Talvez sim, talvez não, talvez eu demore anos para descobrir, talvez eu perceba amanhã. O importante é que aprendi a viver cada dia como único, sem grandes idealizações, sem montanhas se movendo enquanto precisam ficar paradas. Aprendi a entender o ritmo do coração e a controlar a impulsividade digna de um ariano. Lógico, dá uma vontade louca de falar "casa comigo?" e arriscar no escuro o tiro. Talvez até isso aconteça quando eu menos precisar. Mas o certo é que aprendi a não fazer isso meu sentido de vido: se tornou a consequência, apenas uma consequência.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Na fila sem Madonna
Capítulo 6
- “Why am I standing on a cloudEvery time you’re around…”
- Fácil! Angel, de álbum Like a Virgin- Acertou!
- “You took a pretty pictureAnd you smashed it into bits…”
- Hummm…já sei! Amazing, de Music.
- Caramba, acertou!
- “Your heart is not open so I must goThe spell has been broken?I loved you so…”
- Adoro essa! The Power of Good Bye…Álbum, humm…Ray of Light
- Puta que pariu, tá certo!
O menino de Lindóia surpreendeu a todos durante a madrugada. Em um simples jogo de adivinhação de músicas, ele mostrou ser realmente o maior fã de Madonna que já havíamos conhecido. Não errava uma só música, conhecia todos os álbuns e até mesmo algumas coreografias (em várias versões!!!). A cada nova brincadeira, ficávamos de boca aberta tamanho era o conhecimento do menino, embora tivesse apenas 21 anos.
Ficamos nos divertindo durante horas com a discografia de Madonna. A rua estava silenciosa, pouquíssimos carros passavam. Então um táxi parou do outro lado da rua. Estranhamos a principio. As portas do carro se abriram e um taxista de aproximadamente 140 quilos veio em nossa direção. O clima estava tenso, não sabíamos o que estava acontecendo. Percebemos que havia ficado um senhor dentro do táxi.
- Quem de vocês é o Wanderlei?
Tive que me segurar para não soltar uma violenta gargalhada. A voz do taxista era a mais engraçada que já ouvi em toda a minha vida. Extremamente anasalada, ela tinha um agudo muito forte. Na hora me veio à cabeça os dubladores de desenhos animados. Virei a cabeça e contive o riso. Percebi que os outros meninos também haviam segurado o riso.
- Não há nenhum Wanderlei aqui!
- Mas vocês não estão na fila pro show da Madonna?
- Sim, estamos, mas somos apenas nós cinco. Não há nenhum wanderlei aqui.
Ele nos olhou com cara de desconfiado. Virou as costas e entrou novamente no táxi. Ficou alguns minutos conversando com o senhor que lá esperava e então voltou.
- O senhor que está comigo pagou uma puta grana para um tal Vanderlei ficar na fila para comprar os ingressos. Segundo o cara, ele já estaria aqui acampado faz dias.
Pois é, o senhor do táxi havia sido enganado. Algum pilantra prometera que ficaria na fila, pegou a grana e sumiu no mundo. Era a primeira injustiça e prova de que as pessoas podem ser ruins que presenciaríamos no acampamento. Logo o taxista entrou no carro e saiu cantando os pneus.
A noite voltou a ficar silenciosa. Depois daquela cena ficamos de olhos mais abertos. De repente, sem que percebemos a movimentação, um carro preto parou à frente de nosso acampamento. Com os vidros com filme escuro, não podíamos ver quem estava dentro. Nossos corações gelaram imediatamente. Quatro homens grande, com cara de poucos amigos, vieram em nossa direção. Não tinha outra explicação pelo naipe: eram cambistas!
- Vocês estão aqui para a fila da Madonna?
- Estamos sim!
- Chegaram quando?
- Hoje.
- Hum…
O santista, nesse momento, tomou à frente do grupo e encarou os cambistas. Eu já estava com tudo fechado no meu corpo, tamanho era o medo. O cambista empinou o nariz e ficou cara-a-cara com um dos cambistas.
- O que vocês querem?, perguntou o santista
- Nada não, estamos só olhando! Mas tomem cuidado viu, nessa região as pessoas costumam ser assaltadas, barracas costumam sumir, não é bom ficar aqui viu. Melhor vocês voltarem para casa.
Era a primeira ameaça que receberíamos.Talvez se eu estivesse lá sozinho, com certeza já estaria arrumando as coisas e pegando o primeiro ônibus que aparecesse. Mas o santistas estava lá.
-Mermão, nós vamos ficar aqui até o dia das vendas e nada vai nos tirar.
O clima esquentou. Os cambistas ficaram quietos, pensando. Eu fiquei estático, não movimentei um só fio de cabelo.
- A gente está avisando…, e então deram as costas para barraca, entraram no carro e sumiram na noite. O silencio imperou. Olhamos uns para os outros, sem saber o que falar. Eu estava em choque, nunca havia presenciado tal cena.
- As noites serão complicadas. Vamos abrir os olhos galera, essa foi a só a primeira vez. Isso vai acontecer muitas vezes!, alertou o santista e todos se entreolharam.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Na fila sem Madonna
Estávamos agitados. Sabíamos que logo o sono viria, que a noite seria bastante cansativa e que a sensação térmica de virar uma madrugada na rua seria cruel. No entanto, a certeza de estar a poucos dias de segurar o esperado ingresso de Madonna afastava qualquer medo e anseio.
Depois de um dia inteiro nos programando para a noite, a fome bateu. Bobby, o homem simpático que havia ido ao supermercado, voltara com uma caixa enorme do Habbib’s com esfiha, kibe e pastel de Belém quentinhos para saciarmos nossos estômagos. Fingimos que estávamos sentados num parque bem florido (percebemos que teríamos que usar bastante a criatividade para ficarmos acampados na fila), abrimos uma roda na calçada, sentamos no chão sem nos incomodarmos com a falta de conforto e começamos a matar a fome. Antes, propus um brinde: “Às novas amizades que começam aqui e, lógico, à Madonna!”. Tintin!
Mastigadas daqui, risadas dali, e fomos nos conhecendo melhor como em um verdadeiro jantar entre amigos. Não sei se pelo clima de aventura ou pela comida quentinha, eu estava me sentindo muito bem, muitíssimo empolgado com o que estava vivendo. Tudo era tão calmo na rua que até tinha me acalmado.
Porém, foi só o cheiro da comida se espalhar, que teríamos nossos primeiros visitantes. Olhei para trás e vi um cachorro vira-lata vindo em nossa direção. Ele tinha uma roupinha azul, carinha de fome e olhar de “gatinho do Shrek”. Até aí, normal. Fui pegar outra esfiha na caixa e quando me virei a cena era inusitada. Além do cachorro, mais outros quatro cachorros estavam andando lado-a-lado com ele, na mesma velocidade, meio em câmera lenta, cada um com uma roupinha diferente: uma verde, uma amarela, uma vermelha, uma laranja, além da azul que eu já tinha visto. Parecia uma verdadeira boy-band-canina, com cinco cachorros andando juntinhos no mesmo passo. Não tinha como não rir da cena.
Pensei “Todo vira-lata sempre acompanha um mendigo”. Não deu outra! Em seguida, um mendigo apareceu para puxar papo com a gente. Confesso, dificilmente eu gosto de encarar mendigos, tenho um certo receio. Mas desta vez tudo seria diferente. Resolvi encará-lo e…Meu Deus!!! Juro por tudo o que é mais sagrado: era o mendigo mais lindo que eu já vi em toda a minha vida! Loirinho, olhos claros, barbinha por fazer, um rosto quadrado incrível. Não podia ser mendigo, não é possível. Lógico, suas roupas esgarçadas e sujas demonstravam que ele vivia na rua. Mesmo assim não consegui não pensar “ahh, depois de um belo banho (de água quente e de loja) ele super estaria no ponto!”. Fiquei alimentando meu fetiche (?!) enquanto ele puxava assunto.
“Mano, vocês são chique hein, com barraca e tudo na rua” ele disse. “Será que ele acha que somos, sei lá, uma espécie de mendigos modernos providos de teto?”, pensei. Então explicamos que estávamos lá por causa de um show, para comprar ingressos e tal. “É, os seguranças do Credicard são uns chatos, eles bem que podiam deixar vocês dormirem lá dentro (ele ainda era fofo!!!), mas não adianta, eles são cuzões. Uma vez eu pulei o muro porque queria fugir do frio (ohhhh que dóoo!) mas eles me expulsaram de lá dentro”.
Ficamos conversando durante um tempo, oferecemos esfiha para o mendigo bonito e ele recusou pois uma senhora havia dado comida para ele a pouco tempo. Um verdadeiro gentleman. Alguns minutos depois do encontro ele se despediu. “Boa sorte para vocês aí, qualquer coisa to por aqui”, ele disse quando ia embora. Cheguei à conclusão, depois disso, que ainda havia muita coisa interessante nas ruas de São Paulo que eu ainda precisava conhecer.
domingo, 5 de outubro de 2008
Na fila sem Madonna
Capítulo 4
“Eu acho importante organizarmos uma espécie de lista de chegada das pessoas, para ver quem vai acampar aqui, quem vai revezar…”
“Sim, isso é essencial para não ter confusão depois”
“Seria interessante se nós anotássemos o nome de todos que vão fazer o revezamento, dividir por barracas, assim fica mais fácil”
“Ótimo, eu trouxe um bloco de notas, podemos fazer a lista nele!”
E aos poucos, com a colaboração de todos, fui construindo as regras de como seria o acampamento:
1 – Cada pessoa, assim que entrar no acampamento, precisar dar o nome de todos que farão revezamento junto com ela.
2 – Todas as pessoas deverão passar pelo acampamento em algum momento até a venda dos ingressos.
3 – O grupo sempre tem que ter no mínimo um representante na fila. Caso seja verificado que não há ninguém do grupo, o grupo é cortado da lista e vai para o fim da fila.
4 – A partir do momento em que uma nova pessoa resolve se juntar ao acampamento, os grupos em sua frente não podem inserir mais nenhum componente na lista, para evitar injustiças de pessoas entrarem na fila só na hora de comprar os ingressos.
5 – Eu ficaria responsável por passar as regras do acampamento para cada nova pessoa que chegasse, assim como iria cuidar da lista de chegada.
Aos poucos, a lista do acampamento foi sendo formada
No entanto, após a formulação das regras, a primeira dúvida surgiu: “Aonde acamparíamos? Ficaríamos dentro do estacionamento do Credicard Hall? Acamparíamos na Marginal Pinheiros? Acharíamos um local mais apropriado?”. A conclusão de todos do grupo foi a de que o ideal seria acamparmos dentro do próprio estacionamento do Credicard Hall, por uma questão de segurança e frio (que nesse momento, por volta das 18h, já se mostrava bem forte).
Fomos conversar com o chefe da segurança sobre a nossa hipótese e ele foi enfático. “A partir das 20h o estacionamento fecha e eu não posso deixar nenhuma barata ficar aqui dentro! Vocês terão que sair!”. Tentamos articular com ele, com outros seguranças, até mesmo com o bombeiro responsável pelo local. Nada! Teríamos que sair. “Poderíamos te dar uma graninha se você nos deixasse ficar aqui. Você não contaria para ninguém, nós também não contaríamos e todos ficariam felizes”. Nem nossa tentativa de suborno funcionou. O segurança havia sido contratado exclusivamente para tomar conta durante 2 meses do local onde aconteceriam as vendas dos shows. Ele não arriscaria seu salário por meia dúzia de pessoas loucas que desejavam acampar no estacionamento.
A hipótese de ficarmos na Marginal havia sido descartada, pois era muito perigosa para se passar uma noite. Resolvemos dar uma volta em todo o quarteirão do Credicard Hall para encontrarmos um lugar mais apropriado. Depois de muito se discutir, percebemos que o melhor local seria ao lado do portão 3, na parte de trás da casa de shows. Lá, a calçada era mais larga, havia bares e movimento na região, além do frio ser menos intenso.
“Vocês tem certeza que podemos ficar aqui?”, perguntei para os vendedores dos bares que lá trabalhavam. “Olha, já vi diversas vezes pessoas acamparem nessa calçada por causa de shows. A polícia militar e a CET nunca impediram ninguém de ficar aqui. Só é um pouco perigoso, fiquem espertos”.
Perigoso? Eu e o santista fomos conversar com um vigia da região, que trabalhava nas três ruas ao lado do Credicard Hall. Prometemos pagar uma caixinha caso ele pudesse vigiar, durante a madrugada, um pouco do nosso acampamento. O senhorzinho, com uma aparência de uns 50 e poucos anos, concordou com nossa idéia, mas não nos deu muita segurança. Percebemos que estaríamos sozinhos.
Resolvemos montar apenas uma barraca. Por volta das 22 horas os bares começaram a fechar, a escola ao lado também fechou, os portões do Credicard Hall se fecharam, as luzes se apagaram. Algumas pessoas do acampamento voltariam apenas no dia seguinte. Seriam apenas 5 pessoas: eu, o santista, o menino de Lindóia, um dos primos e o homem simpático. “Peço que ninguém, nessa primeira noite, durma um só momento. Não conhecemos a região, será uma noite perigosa, estamos em poucas pessoas. Vocês topam?”, sugeri e todos aceitaram.
Teríamos 10 horas pela frente até a reabertura dos portões do Credicard Hall, 10 horas de uma madrugada gelada na cidade de São Paulo, 10 horas de silêncio na rua, 10 horas de um perigo iminente a cada carro que passasse na frente de nossa barraca. Teríamos que controlar nosso sono, nossa paciência e nosso frio. O homem simpático sugeriu ir ao supermercado mais próximo comprar comida e bebida para a gente. Juntei a idéia de ter sono e passar frio e não pensei duas vezes: “Me traz duas latinhas de energético, por favor!”.
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Na fila sem Madonna
Capítulo 3
Acordei na casa de meu amigo sabendo que seria a última noite dormida no conforto de uma cama. As próximas noites seriam de muito frio, chão duro e o barulho ensurdecedor da Marginal . Tomamos um caprichado café-da-manhã preparado pela mãe de Driko, colocando o restante de torta e salgadinhos na mala e rumamos ao Credicard Hall. Desta vez, descemos no metrô Ana Rosa e pegamos o ônibus que eu pego todos os dias para ir trabalhar (agora eu havia aprendido!). No ônibus, extremamente lotado, descobrimos que teríamos que descer do outro lado da Marginal Pinheiro. Mas nada que mais um ônibus e a integração do bilhete único não pudesse nos ajudar.
Desembarcamos no Credicard Hall por volta das 13h30, aparentemente vazio. Falei “oi” para o chefe da segurança que eu conhecera na noite anterior e nos direcionamos para a tenda montada no estacionamento. Ninguém estava lá, mais uma vez. Colocamos as malas na gande das futuras bilheterias e sentamos no chão. Dez minutos se passaram e nada. Vinte minutos. Meia hora. Nada!
“Vamos montar a barraca?”.
Encontramos uma maneira de passar o tempo e o frio aterrorizante que estava naquela tarde. Mas confesso: não foi tão fácil assim. Muitos e muitos minutos de paciência foram precisos. Muitas risadas e olhadas no manual e conseguimos montar a barraca. Entramos nela para nos protegermos do frio.
Dez minutos. Meia Hora. 1 hora. Nem sinal de vida de mais pessoas. Resolvi dar uma volta no Credicard. Parado, olhando o trânsito da Marginal, percebi uma movimentação em um dos portões. Um homem chegava com diversas malas, sendo auxiliado por um casal. Associei malas + portão de entrada do Credicard = acampamento! “Vocês vieram para acampar na fila dos ingressos da Madonna?”. Fiquei muito feliz com a resposta positiva das pessoas. “Me acompanhem, o acampamento está sendo formado ali dentro. Meu nome é Paulo, sou o 1º da fila”. “Ahhh, então você é o Paulinho, da comunidade da Madonna?!”. Pois é, muitas pessoas já sabiam de minha existência, tal tinha sido o tumulto de minhas mensagens na noite anterior.
Nos apresentemos. Um dos homens, o primeiro a chegar com as malas, tinha por volta de 30 anos, era de Santos e apresentava uma pinta de malandro e jeito de “arranjo encrencas facilmente”. O casal iria emprestar sua barraca para ele. Além deles, um outro homem, com um jeito bastante simpático e sociável, me disse que estava sentado na Marginal desde o começo da manhã e iria se juntar ao grupo. Pouco tempo depois, outros dois meninos chegaram, dois primos, muito simpáticos. Além deles, mais um menino, com uma mala pequena e um sorrisão no rosto, vindo diretamente de Lindóia, cidadezinha divisa com Minas, e uma menina, que não iria ficar naquela noite, mas que estava disposta a entrar na brincadeira. O acampamento enfim começava a se formar.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Na fila sem Madonna
Meu mapa-destino impresso em casa mostrava que eu deveria descer na Estação Pedro II e pegar um ônibus no terminal que me levaria para o Terminal Santo Amaro. Eu apenas não sabia que a estação do metrô não era tão perto assim do terminal, por isso lá fui eu carregando um enorme peso nas costas em busca do terminal. Um segurança até me disse “você não é daqui né?”. Pensei “será que estou com cara de muambeiro do Paraguai?”, mas resolvi me ater ao caminho. Chegando no terminal, achei o ônibus e sentei no último banco.
Dali até o terminal foi uma incansável viagem de 1 hora e meia, um trânsito horroroso na Avenida 23 de maio, o ônibus completamente cheio, pré-adolescentes falando muito alto coisas inúteis e brincando de ler “errado” um livro escrito em inglês. Um banquete para a paciência. Eu estava temeroso com o tempo, que estava começando a ficar muito nublado, com ventos gelados e a noite se aproximando. Eu queria me juntar ao acampamento ainda à luz do dia, por isso rezei para todos os santos para que o trânsito fluísse melhor.
Quando cheguei no Terminal Santo Amaro por volta das 18 horas aconteceu a primeira cagada: fui levantar a minha mala e crec! Ela fez dois rombos gigantes. Além disso, começou a garoar nesse momento. Olhei para cima e logo pensei que estaria escrito em minha testa “sarcasmo divino”. Então perguntei para um segurança “O Credicard Hall é aqui perto, certo?”. Não fiquei muito feliz quando ele disse que eu deveria pegar outro ônibus. E lá fui eu de novo subir no ônibus, agora com a mala rasgada. Mas dessa vez foi mais suave, em 10 minutos eu estava no Credicard.
A noite já começava a se instaurar no céu. Entrei rápido no Credicard Hall, me direcionei ao segurança perguntei “Onde será a venda dos ingressos para o show da Madonna?”. Ele me olhou com uma cara estranha, mistura de surpresa e sarcasmo, e respondeu “É naquele outro estacionamento. Mas você sabe que as vendas só acontecerão na quarta-feira né?”. Eu, no cúmulo de minha nojentice, respondi “Lógico que sei! Obrigado!”. Pensei comigo “já tem um monte de gente na fila, porque ele vem perguntar isso para mim?”. Entendi depois.
Fui caminhando até o estacionamento lateral, onde fora montada uma tenda gigante para comportar os guichês de venda do show. O local tinha sido montado especialmente para as vendas da Madonna, talvez para não causar um quebra-quebra na estrutura oficial do Credicard Hall. Estranhei o silêncio, mas pensei que talvez as pessoas estivessem dentro de suas barracas. Entrei no estacionamento e…não tinha ninguém! Luzes apagadas, guichês vazios, um local que dava até eco de tão abandonado. Não entendi. “Cadê as pessoas do acampamento?”. Depositei minha bagagem no chão, andei de um lado para o outro procurando respostas que não vieram. “Não é possível!”
Voltei ao estacionamento principal. “Talvez as pessoas estejam acampadas na rua de trás da casa…”. Não estavam! “Talvez no portão da Marginal Pinheiros…”. Nada! O que estava acontecendo? Fui perguntar para o chefe da segurança do Credicard e ele me informou que ninguém havia chegado para a fila da Madonna. Além disso, ele deu a notícia: “São 19 horas e às 20 horas nós iremos fechar o Credicard Hall. Ninguém pode ficar aqui dentro viu, você terá que ir para fora da casa!”. Como assim? Não havia ninguém e eu ainda seria colocado para fora, à deriva dos perigos daquela região nada familiar? O segurança perguntou, olhando para minhas malas e meu desespero, se eu era de São Paulo. Fiquei com vergonha de falar “sou sim, um idiota que veio acampar sozinho na pqp e nesse frio!”, então respondi “sou do interior de São Paulo, por isso vim de malas”. Okey, foi uma mentirinha, mas na hora eu não estava pensando muito.
Sentei em minha mala, no meio do estacionamento. Peguei o celular e (obrigado tecnologia!) entrei na comunidade dos fãs da Madonna no Orkut. Mandei uma mensagem dizendo que eu estava lá e não tinha ninguém. Em pouco tempo meu nome começou a ser comentado. “Como assim não tem ninguém? Me falaram que tinha!”, “Paulinho, você é corajoso, foi sozinho para aí?”, “Paulinho, sai daí, é perigoso ficar sozinho!”. Eu não sabia o que fazer. Não poderia voltar para casa porque, afinal para meus pais já tinha se formado um enorme acampamento na fila, e o ambiente estaria tranquilíssimo. Se eles não estavam gostando da idéia de eu acampar na Marginal Pinheiros, o que eles pensariam se eu voltasse para casa dizendo que não tinha ninguém lá.
A solução foi recorrer ao melhor amigo. “Driko, não tem ninguém aqui!!!”. Ele fez o que até eu mesmo faria se não fosse comigo: deu uma enorme gargalhada. Depois de conversar muito com ele, perguntei se eu poderia dormir na casa dele naquela noite e disse que voltaríamos juntos à fila no dia seguinte. Ele topou. E lá fui eu para o ponto-de-ônibus novamente. Antes, lógico, cheguei para o segurança e disse “prazer em conhecê-lo, meu nome é Paulo, estou indo embora, mas amanhã eu volto!”
No ponto de ônibus o último sarcasmo divino. Peguei um ônibus que me levaria para o metrô Ana Rosa. Olhei para o número do ônibus, observei bem o itinerário e comecei a rir. Era o mesmo ônibus que eu pegava todo santo dia para ir trabalhar. Lógico que quando eu atravessei a cidade para chegar no Terminal Santo Amaro, pegar trânsito, rasgar a mala e ainda ficar com medo de ser assaltado, lógico que aí eu não sabia. Mas agora eu já tinha a certeza de como voltar no dia seguinte.
Ps: De tão atordoado com os acontecimentos, no lugar de “não tinha ninguém” eu disse “não tinha ingresso”. Vai entender!
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Na fila sem Madonna
Sexta-feira, 29 de agosto de 2008
O relógio marcava 10 e meia da manhã. Cheguei ao meu trabalho após quase duas horas de um trânsito caótico, mas já costumeiro de São Paulo. Atravessar a cidade da Mooca para a Vila Olímpia todos os dias é uma tarefa complicada, mas nesse dia as coisas se tornariam um pouco diferentes. Entro no MSN como sempre faço e assim que fico online já vem a mensagem: “Paulinho, Meu Deus, notícias novas a respeito do show da Madonna...”
Eu, fã convicto, que estava acompanhando tudo o que rolaria desde a confirmação do show até o início das vendas, li com toda a atenção possível o que meu amigo falou, amigo este de Campinas que conheci através da comunidade da Madonna no Orkut. Ele me contou as mudanças nas vendas do show, a liberação de todos os cartões de crédito para um show e tudo o que foi divulgado naquele dia.
Li atentamente aquilo e no final ele disse “...e pelo jeito já tem gente acampando no Credicard Hall desde quarta-feira”. Foi então que o desespero bateu! Eu estava me programando para ir para a fila do Credicard no sábado ou domingo, porque meu objetivo desde sempre era conseguir o tão sonhado ingresso para Pista VIP e ficar o mais próximo de Madonna possível. Não iria tentar comprar pelo site, pois eu sabia o caos que se instaura na Internet quando são vendidos ingressos para um show do porte deste (vide U2) e muito menos pelo call-center porque...bom, é call-center, todos sabem como “pode estar funcionando” o sistema de call-center no país. Era isso! Eu iria acampar e já havia pessoas na fila. Eu precisava me juntar a eles!
Contei para todos no trabalho o que estava acontecendo. Eles sabiam o quão fanático eu sou por Madonna e então, por volta das 14 horas, eu retornei correndo para casa para arrumar as malas e me aventurar no acampamento. Aprontei a barraca com lugar para 6 pessoas, emprestado pelo marido de minha prima, aprontei o colchonete desenterrado das profundezas de minha casa por minha mãe, aprontei roupas para passar 6 dias na rua, arrumei lanterna para suprir meu medo pelo escuro, arrumei salgadinhos, garrafa d’água, celular, bloco de anotações e tudo o que eu considerava essencial para o kit “sobrevivência na Marginal Pinheiros”.
Dei tchau para meu pai, ele me respondeu “você é louco”, dei tchau para minha mãe, ela respondeu “prefiro não comentar o que você está fazendo”, dei tchau para minha cachorra, ela não entendeu muito bem. Eu nunca havia visitado o Credicard Hall e as indicações que peguei pelo site da SP Trans pouco me deixavam confiante de que seria uma ida fácil. Mochila nas costas, barraca e mala nas mãos e fui para o metrô. Era sexta-feira, quase 16h, eu precisaria chegar ao Credicard Hall antes do anoitecer, pois sabia que a região era perigosa e eu não fazia a mínima idéia do que iria encontrar. Sem pensar nas conseqüências, entrei no primeiro vagão do metrô.
sábado, 13 de setembro de 2008
O calor do arco-íris fortalezense
- Tatá, vou correndo para a sala de imprensa assim que acabar essa coletiva tá?
- Ótimo Paulinho, enquanto isso vou entrevistar aquele diretor do filme!
- Até a hora do almoço já coloco a matéria no site e descarrego as fotos, tenho que correr…
- A gente vai ter que almoçar rapidinho para não perdermos a van para o festival.
- Tá, vou cooooorreeeeer, quantos filmes são hoje de tarde?-
Acho que 4 e de noite tem mais 7!
- Ai meu Deus, beeeeeeeeeeeijo que to atrasado, te vejo daqui a pouco.
Pois é, eu e Tatá estamos de volta a São Paulo após seis dias extremamente corridos em Fortaleza. Fomos convidados pela organização do For Rainbow - Festival de cinema da diversidade sexual para cobrirmos a 2ª edição, que aconteceu na cidade entre 5 e 9 de setembro, e vou confessar: foi uma das experiências mais incríveis de toda a minha vida.
Assistimos filmes de uma qualidade impressionante, conhecemos pessoas do Brasil todo, profissionais do mundo cinematográfico, da crítica, do teatro, da televisão, entrevistamos pessoas de um talento incomparável (a sensação de estar cara-a-cara com Ney Matogrosso e com o queridíssimo ator Nildo Parente foi inexplicável), aprendemos muito sobre cinema.
Foi uma grande oportunidade para entender de perto a cultura, o conhecimento e o modo de trabalho das pessoas responsáveis por fazer filmes. Mais do que o produto final que apenas estamos acostumados a ver, conseguimos entender os porquês de tudo o que vimos na telona, entender a cabeça desses formadores do cinema, pessoas talentosíssimas de todas as partes do país.
Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre, Brasília, Curitiba: o Brasil em Fortaleza
Lógico que pudemos, nas pouquíssimas horas vagas que tivemos (o trabalho era hard!), nos deliciarmos com as comidas típicas do Ceará (ah que saudades sentirei do rodízio de camarões daquele lugar), das praias de natureza belíssima, do céu mais azul impossível e do calor e fervor que só uma cidade nordestina consegue ter.Quero agradecer a todas as pessoas que fizeram esse festival se tornar um sucesso, aos organizadores, aos idealizadores, aos realizadores dos filmes, à imprensa que foi convidada e ao público que foi fiel em toda a programação. É a mostra de que a diversidade sexual está cada vez mais sendo discutida e seu espaço está crescendo em nossa sociedade.
Toda a cobertura dos 5 dias de festival pode ser conferida em nosso site (acesse aqui o link) e na DOM de outubro teremos uma matéria especial sobre o que de melhor foi apresentado durante o II For Rainbow. Aguardem!
Eu tive a oportunidade de representar toda a imprensa convidadas para cobrir a programação do For Rainbow e fui o escolhido para entregar o troféu Arthur Guedes (o prêmio oficial do festival) para o filme escolhido pela crítica. Foi uma emoção muito grande prestigiar Ana Cláudia França com o troféu por seu trabalho no curta “Singuralidades”, que também venceu como filme de melhor documentário. Foi uma honra subir no palco e ter a DOM representando toda a imprensa.
Momento Besteirol: Ahhh, lógico, não posso esquecer de contar umas curiosidades engraçadas sobre a viagem (nessa hora Tatá me matará quando ler rs). Como todo o grupo do festival ficou bastante unido e se tornou uma verdadeira família, os realizadores dos filmes apresentados na Mostra Competitiva resolveram criar uma espécie de premiação paralela. Seria uma espécie de troféu For Rainbow, mas com categorias, digamos, bastante irreverentes. Entre elas estava o prêmio de melhor hetero, o mais bem vestido, o miss simpatia, o ativo, o passivo, o relativo e tantas outras divertidíssimas.
É com muita honra que conto a vocês que eu e Tatá fomos premiados nessa competição engraçada. Mais do que merecida, Tatá recebeu o troféu de diva do festival (táaaaaaaa meu bein, ela pode!) e eu recebi duas estatuetas, a de melhor jornalista (uhhul!!!!!) e o prêmio mais esperado da noite: fui consagrado com o troféu de melhor bicha do festival. Hahaha, juro, não estou de sacanagem! O júri me considerou o gay mais importante do For Rainbow (Paulinho empina o nariz, joga os cachinhos de lado e faz carão rs).
ógico, todos levaram a brincadeira no melhor humor possível e a premiação terminou com uma enorme certeza de que muitas amizades tinham sido feitas naquela cidade e que perdurariam por todo Brasil. Foi um prazer conhecer todos que conheci e sei que volto de Fortaleza muito mais rico pessoalmente e profissionalmente. Que venha o III For Rainbow ano que vem! Vai dar saudades!
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Armando a barraca
Colchonete: confere
Lanterna: confere
Máquina digital: confere
Gravador de voz: confere
Blocos de notas: confere
Kit alimentação: confere
Remédios: confere
Troca de roupas: confere
Pilhas: confere
Livro: confere
Escova de dente: confere
Galão de água: confere
Guarda-chuva: confere
Repelente: confere
Acampamento em uma praia deserta? Mochilão no interior? Viagem para o Pantanal? Não não, estou me preparando fisico e emocionamente para passar 5 dias na fila da Av. das Nações Unidas para comprar ingresso para o show da Madonna. De fã e louco todo mundo tem um pouco, certo?
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Venhaaaaaaaaaaaaaaaa!
Pois é, a notícia mais esperada no ano enfim se confirmou (leia aqui). Jornalismo à parte, Paulinho Basile aqui estará acampado dias antes na fila, com direito a vários sanduíches, garrafas de água, cadeira de praia e muita, mas muuuuuuuuuita paciência. Todo sofrimento válido para realizar o sonho de assistir ao show da diva. Sim, estarei no meio da multidão de pessoas ensandecidas para colocar a mão no ingresso do show em São Paulo, o mais esperado da minha vida. Exagero? Sim, mas, ao menos para mim, extremamente válido! Coisa que só fã de verdade entende!
Agora, pensem comigo: grande parte do público de Madonna é formado por gays. Grande parte dos gays brasileiros (que tiverem economizado seu rico dinheirinho) vão ao show. A pergunta que não quer calar: A compra dos ingressos e os shows serão uma Parada fora de época? Ficaadica!

