quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Na fila sem Madonna


Capítulo 11

Segunda-feira, 1º de setembro de 2008

Eu, desde que acordara naquela manhã pelo barulho dos carros passando na rua, fiquei extremamente de mau humor. Bem diferente de como havia sido sábado e domingo, com pouco movimento naquela via, na manhã dessa segunda-feira o tráfego era bastante intenso. A cada caminhão que passava na rua, a calçada, bastante estreita, balançava.

Tinha sido uma madrugada horrível, pelo frio que eu passara e pelo casal que dormia ao meu lado. Além disso, por volta das 4 da manhã, fui acordado abruptamente na barraca por pessoas chamando meu nome. Horus, um menino que eu também havia conhecido na comunidade do orkut da Madonna, chegara ao acampamento de madrugada e, como havíamos combinado, ficaria na minha barraca.

Mas, naquela hora da madrugada, pouco tempo de eu ter me deitado na barraca, eu estava tão drogado de sono (e irritação), que apenas fui realmente notar sua presença quando me acordaram novamente, às 7 da manhã, para explicar as regras para mais pessoas que estavam chegando. Com cabelo desarrumado, bafo horroroso e olhos fechados, tive que falar regrinha por regrinha a cinco novas pessoas que chegavam na fila.

Horus, como também havíamos combinado, trouxera quase 100 pulseiras de camarote para podermos identificar as pessoas do acampamento. Passamos de um por um na fila colocando as pulseiras. Extremamente engraçado, ele me proporcionou algumas risadas no meio de meu mau humor. Simpatizei com o menino desde o primeiro “oi”. Aquela sensação de “vou precisar de você do meu lado para aturar tudo isso” me dominou.



Tomei um rápido café da manhã que a mãe de um menino trouxera e fui dar uma volta sozinho, sem que ninguém me notasse e chamasse por meu nome. Se de noite fizera em torno de 10 ºC a temperatura dentro da barraca, pouco tempo depois de acordar, por volta das 10 da manhã, a temperatura já passava dos 30º C. Eu não estava me sentindo bem. Minha cabeça estava zonza, minha boca ardia, minha pressão estava alterada. Fui até um bar na rua comer um pão-de-queijo e usar o banheiro. Comecei a passar mal lá. Fiquei enjoado, tudo começou a rodar a minha volta. Para piorar, briguei por telefone com minha mãe. Além disso, tive que organizar várias coisas na fila com pessoas que estavam sendo bastante folgadas.

Eu estava irritado, nervoso, enjoado. Será que havia ficado doente? Eu apenas sabia que não conseguiria ficar mais um só minuto sob aquele sol. Não desejava largar a fila, mas eu realmente precisava de um banho, precisava de remédio para enjôo, precisava da minha cama, precisava da minha mãe, precisava ficar nem que fosse uma horinha sem que alguém chamasse por meu nome. Havia chegado ao limite.

- Gente, eu estou prestes a desmaiar. Por favor, continuem a organização de tarde, eu estou indo para casa. Volto ao entardecer, qualquer coisa me liguem – e rumei pela segunda vez, desde que chegara ao acampamento, para o ponto de ônibus, meio cambaleando, meio febril, meio segurando meu estômago na garganta.

domingo, 16 de novembro de 2008

Na fila sem Madonna


Capítulo 10

A noite de domingo começou a apontar no horizonte. A cada hora chegavam mais pessoas curiosas em saber o porquê de estarmos lá acampados. Até mesmo um casal que morava na região há 18 anos se sensibilizou com nossa organização e disse que a casa deles estaria aberta para o que precisássemos. “Se quiserem tomar um banho, fazer um miojo, contem com a gente!”. Através deles, fiquei sabendo um pouco da história do Credicard Hall: antes de sua construção, o local abrigava três campos de futebol e um córrego do Rio Pinheiros. Com a construção da casa, tudo foi destruído sem dó!

A ansiedade da noite ficou por conta do início das vendas para os shows no Rio de Janeiro. Nós tínhamos certeza de que o que acontecesse no Rio repercutiria diretamente em nosso acampamento. Por volta da meia noite, chamei uma reunião com todos do acampamento. Ale Jump, o menino que viera visitar a fila na madrugada anterior (que iria nos shows de Buenos Aires e Nova York) ficara de me ligar quando as vendas começassem pelo site.

À meia noite, o telefone tocou. Todos da fila se reuniram a minha volta. Foram minutos e mais minutos de muita conversa, sustos, caras de estranhamento e confirmação do que já imaginávamos: toda a rede estava congestionada, ninguém conseguia comprar nada. Aos poucos, todos começaram a receber mensagens em seus celulares de amigos ou parentes dizendo que estava impossível comprar qualquer ingresso. Agora tínhamos certeza que no dia seguinte o acampamento iria fervilhar.

Seria nossa última noite de “sossego”. Resolvemos comprar bebidas para nos esquentarmos do frio. Eu, fraco para bebida, em pouco tempo fiquei bem alegre (ou “levemente sensual”, como gosta de brincar o Driko, meu amigo). Até enrolei a língua para explicar a dois meninos que chegavam as regras do acampamento. Não era fácil ser porta-voz com álcool no corpo!

Por volta das 2 da manhã, resolvi dormir. Chamei o menino de Campinas para irmos à barraca. Era a hora de descobrir se seríamos mais do que amigos.

“O ator podia também ficar na nossa barraca né, e deixar a barraca dele, que é pequena, para os outros dois meninos que chegaram e estão sem. Eles ficariam mais à vontade e não passariam frio”, me pediu o menino de Campinas. Embora com o pensamento de “ahh, mas íamos ficar a sós”, concordei na hora.

Deitamos os três na barraca: eu em uma ponta, o Campinas no meio e o ator na outra. Virei para a parede, ajeitei as cobertas e me preparei: “agora vou virar, vou abraçá-lo e dormiremos juntinhos”. Então virei e…fiquei em choque! Como eu havia sido ingênuo, não acreditava no que estava acontecendo, não era possível. O menino de Campinas e o ator estavam já meio que abraçados, juntinhos, lado-a-lado, super namorandinhos. Não sabia o que fazer, eu estava sendo “traído” em minha própria barraca. Olhei para o menino de Campinas e apenas consegui dizer “não acredito…”. Ele virou para mim e disse “ahn? não entendi”, virou de lado e dormiu abraçado com o menino.

Senti um letreiro de “idiota” piscando intensamente na minha testa. Deitei de lado novamente e tentei dormir. Mas foi bastante difícil, por dois simples motivos: a sensação de ter um casal ao meu lado “Deus sabe fazendo o quê” (eu não me dignei a olhar) e pelo frio. Sim, frio, pois os dois, na maior cara de pau, puxavam minha coberta e me deixavam tremendo de frio. Em minha própria barraca!!!!! E Deus, lá em cima, ria novamente de mim.

Na fila sem Madonna



Capítulo 9

Foi delicioso comer a comida de mamãe, tomar um banho quente, colocar uma roupa limpa. Mas eu já vivia a emoção da fila, eu já sentia adrenalina de passar noites e mais noites na rua. Não suportava o fato de eu estar em casa, enquanto o acampamento estava lá, a cada instante com possíveis novas pessoas. Acho que o frio da madrugada passada definitivamente tinha afetado meus miolos: saí correndo do conforto de casa pouco tempo depois de chegar. Eu precisava voltar para a fila.

Quando cheguei, quase 1 hora e meio depois, realmente novas pessoas haviam chegado. No entanto, me surpreendi quando vi que o acampamento continuava no mesmo lugar, na rua atrás do Credicard Hall. Eles não haviam migrado para dentro do estacionamento, como havíamos decidido na noite anterior.

- Lacraram os portões! Não podemos mais ficar lá dentro. É aqui ou na Marginal, então resolvemos manter nossas coisas nesta calçada.

Realmente era a melhor opção. Meu amigo Driko ainda não havia chegado, mas, mesmo assim, minha barraca estava lá, intacta. Percebi que o clima de cumplicidade tomava conta daquele ambiente.

Me apresentei às novas pessoas (um ator bem bonito de 30 anos, um menininho japonês de 16 anos, meu amigo de Campinas que eu havia conhecido na comunidade da Madonna, e alguns outros):

- Bom, galera, eu sou o Paulinho, o primeiro da fila, alguns de vocês até já me conhecem pelo Orkut. Nós colocamos uma série de regrinhas no acampamento para preservar a segurança das pessoas e, lógico, não presenciarmos nenhuma injustiça. Ouçam com atenção…

E, detalhadamente, contei aos novos integrantes todas as regras que já havíamos decidido desde o começo. Anotei os nomes na lista, ajudei na montagem das barracas e comecei a conhecer um pouco mais dos meus novos companheiros de “alojamento”. Mas, confesso, que eu estava realmente interessado era mesmo no meu amigo de Campinas.

Eu o via como algo a mais do que um simples amigo. Ele namorava há mais de 1 ano, mas pela Internet havia dados sintomas de que minha relação com ele (dividiríamos a mesma barraca!) seria muito mais do que amigável. Mas, ainda naquela noite, eu ainda teria uma grande surpresa dentro de minha própria barraca, uma noite que eu jamais esqueceria.

Enquanto estava imerso em meus pensamentos, comecei a ouvir uma espécie de pagode, cada vez mais alto. Percebi que a rua começou a ficar com um grande movimento, começamos a ouvir uma série de buzinas, de pessoas gritando. Rebelião? Casamento? Protesto? Não não, era nada mais, nada menos, que o comício do candidato a vereador Netinho de Paula (Domingoooooo da Gentiiiiiiiiii, ele mesmo!), hoje o 3º mais votado da cidade nas últimas eleições.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Na fila sem Madonna



Capítulo 8

A noite se foi sem maiores emoções. Tentamos ficar acordados, controlando o frio, que beirava a casa dos 10 ºC, e o sono, que já estava bastante complicado. Peguei uma manta que havia levado na mala, sentei na mureta do Credicard Hall, e fiquei contando os minutos passarem. O vento gelado batia nas bochechas do rosto e provocava calafrios em todo o corpo. Foram mais de 2 horas de muita concentração. Tivemos, nesse tempo, apenas mais uma única “visita”.

Dois homens sentados em uma carroça, sendo controlados por um cavalo, passaram pelo acampamento animadíssimos e nos chamaram de “ciganos”, dando altas gargalhadas. Talvez fosse pelo fato do santista ter enrolado sua coberta xadrez de cor laranja em suas pernas e, realmente, estar parecendo um cigano.

Quando o céu começava a dar sinais de que mais um dia iria começar, falei com os meninos que deitaria um pouco na barraca. Coloquei a cabeça em minha mala e em pouco tempo adormeci. Fiquei imóvel durante cerca de 40 minutos, controlando a dor nas costas com o desconforto da calçada. Ao ouvir um caminhão passar na rua a todo vapor, acordei assustado.

Do lado de fora da barraca, ouvi uma conversa em tom de discussão. O santista conversava em uma altura nada amigável com um cara de uns 40 e poucos anos. Mesmo sonolento, ao olhar para ele, já percebi que tinha um jeito de cambista. Eu estava com muito sono, ouvi palavras jogadas na conversa do tipo “cadeia”, “ameaça”, “toma cuidado”. Embora sentisse que o teor da conversa era bastante sério, em tom realmente de ameaça, não dei muita trela O sono falava mais alto. Só horas depois eu saberia que a discussão havia sido bastante feia com o cara, que realmente era cambista e que queria burlar as regras impostas pelo grupo do acampamento, ameaçando as pessoas que já estavam nele.

Mas no momento da briga, eu estava mesmo hipnotizado pelo sol, que aos poucos aparecia no meio do horizonte. Eu nunca havia ficado tão excitado como naquele momento, por conta da simples sensação dos primeiros raios de sol tocando meu rosto. “Eu tenho bochechas novamente”, era tudo o que eu conseguia pensar.
Pouco antes das 8 horas da manhã, quando todos já estavam bem dispostos com o calor do sol e com a ansiedade de voltar novamente para dentro do Credicard Hall, decidi dar um pulo em casa. Fazia dois dias que eu estava sem tomar banho e os primeiros sinais de sujeira (cabelo praticamente black-power e meias com um desagradável chulézinho, eca!) já apareciam.

Ficou acordado que os meninos cuidariam de minha barraca até que o Driko chegasse novamente ao acampamento, como já havíamos combinado. Eu iria para casa, tomaria um banho rápido, comeria alguma coisa saudável e correria de volta para o acampamento, que nesse momento, já deveria estar se formando dentro do Credicard Hall. E lá fui eu para o ponto de ônibus, com a felicidade de quem sentiria as gostas de água quente percorrendo pelo corpo e depois sentaria com mamãe na mesa farta do almoço.

Na fila sem Madonna


Capítulo 7

Teríamos apenas mais uma visita inesperada naquela madrugada movimentada. Um carro parou à frente de nosso acampamento. Mais uma vez um carro preto, mais uma vez com vidros escuros. Ficamos tensos. Será que eram novamente os cambistas? O vidro se abriu e ouvimos um “Paulinho?”. Uffa! Era alguém conhecido. De dentro do carro saíram três meninos, sendo que o que havia chamado por meu nome reconheci que era um integrante da comunidade da Madonna no Orkut. Durante as semanas que antecederam ao acampamento, por diversas vezes nós havíamos conversado. Nos apresentamos e durante o pouco tempo que nao tive, a princípio, uma boa impressão dele.

- Ficamos sabendo que havia pessoas na fila e resolvemos dar uma passada.
- Mas vocês vão se juntar com a gente ao acampamento?
- Não! Nós vamos comprar pela Internet. Mas estou sossegado, pois já comprei para Nova York e também irei ao show de Buenos Aires, então estou mais tranqüilo!
- Ah…


Não gosto de pessoas esnobes. No frio daquela madrugada, com tudo o que já havíamos passado, a última coisa que eu queria era ver alguém chegar na fila de carro importado, confortável com ar-condicionado quente do veículo e ainda ter que ouvir que a pessoa iria a diversos shows da Madonna. Era um tapa na cara nada agradável.

Ao sair, o menino deixou de lado um pouco o ar de superioridade que ficou evidente, pegou meu número de celular e disse que poderíamos contar com ele para o que fosse necessário. Dei um sorriso, agradeci, mas não estava muito contente com a cena que tinha acabado de acontecer.

Voltamos para nossa roda e continuamos a conversar. Foi então que eu descobri que o Bobby era uma das pessoas mais engraçadas que eu já havia conhecido na vida. Para passar o tempo, ele começou a contar diversas histórias hilárias que já havia vivido.

- Uma vez, eu e minha mulher estávamos passeando em um shopping center, quando vi na vitrine de uma locadora um poster da Madonna. Eu precisava daquele pôster de qualquer forma. Virei para minha esposa e disse “Sandra, você vai entrar naquela loja e vai conseguir aquele pôster para mim, não importa como! Eu estarei esperando na praça de alimentação”. Olha, eu sei que 15 minutos depois que entrou na loja, ela voltou com o poster e meu deu. Eu disse para ela “Sandra, eu te amo, muito obrigado, e não preciso saber como você conseguiu tá, guarda isso para você!”.

Nós quatro já estávamos nos mijando de rir com a história, quando ele disse que não havia acabado.

- Nesse mesmo dia, eu havia prometido para ela que iria acompanhá-la em uma missa do Padre Marcelo. Eu nunca fui muito religioso, mas promessa era promessa né. Estava eu lá com sono, ouvindo a missa, quando o Padre falou para os milhares de fiéis “Agora, é o momento da benção. Eu quero que vocês levantem fotos de parentes ou documentos que vocês desejam que sejam abençoados”. Ahhh, eu não pensei duas vezes! Peguei o pôster gigante da Madonna e ergui com o maior orgulho! Vocês podem rir de mim, mas agora Madonna está lá na parede de casa abençoada pelo Padre Marcelo!!!!!

Minha barriga doía de tantas gargalhadas. A cada vez que eu imaginava a cena do poster sendo erguido, eu caía no chão de tanto rir. E ele contava tudo com tanta naturalidade que ficava mais engraçado ainda. E tinha mais histórias!

- Outra vez eu estava na casa de uns amigos em uma favela, aqui na Zona Sul de São Paulo. Um dos meninos havia conseguido uma fita de vídeo de um show da Madonna. Todos eram gays lá, menos eu. Sempre tive amigos gays, nunca tive problemas com isso. Estávamos em umas 15 pessoas, todas fascinadas com o show, cantando com a apresentação de Vogue. De repente, entram na casa o irmão de um dos meninos e vários homens mal-encarados, eles saem correndo pro quarto e voltam para a sala com várias armas na mão! Eu fiquei congelado, não sabia o que fazer, todos estavam morrendo de medo. Aí os homens saíram da casa e começou um puta tiroteio lá fora. Eu pensei “Pronto, vou morrer ouvindo Vogue, vou morrer com Madonna!”. Mas imaginem no dia seguinte, na capa do jornal, a foto de um monte de homens mortos juntos e na TV tocando Madonna. Eu ia morrer com um monte de viado ao lado e nem poderia explicar que eu era o único hétero ali!!! Depois de morrer, eu viraria gay, era só o que faltava!!!!!

A partir daí eu não tinha mais estômago, de tanto que minha barriga doía de rir.

- Lá em casa já ensinei meu filhinho desde pequeno. Eu digo para ele: “Filho, você tem que amar acima de tudo o papai, a mamãe, a vovó e, lógico, a Madonna!”.

A noite aos poucos foi se passando com o eco de gargalhadas na extensão da rua.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Ciclos

Um dos principais defeitos que a rotina pode trazer à vida é a incapacidade de nos analisarmos, de aproveitarmos aqueles preciosos 5 minutos para olharmos para nosso umbigo e pensarmos "estou no caminho certo?". Esse nostálgicos momentos acontecem quando menos esperamos: numa noite de chuva rala, num metrô lotado, num olhar vazio deitado na cama, num sorriso escondido por lábios enciumados, por um aglomerado de pessoas vindo em sua direção e você não sabe se as acompanha ou se segue o caminho contrário.

Hoje, caminhando pelas ruas semi-iluminadas da Mooca, tive meu momento. "estou no caminho certo?" Falta pouco menos de 1 mês para eu me formar no curso que escolhi seguir em minha vida, pouco menos de 1 mês para eu falar de boca aberta "sou jornalista". Meu trabalho cada dia que passa me transforma em um melhor profissional, cada dia que passa tenho mais responsabilidades e mais histórias para contar. Minha família não teve mais grandes brigas, minha casa não presenciou mais grandes crises de choro. Meu grupo de amigos se afunilou e hoje os que estão dentro desse funil eu sei que posso contar para a mais tensa crise de tristeza e para o mais profundo ataque de riso, pessoas incondicionais que constroem cada dia meu presente e deixam uma confirmação mais do que verdadeira de meu futuro. E o coração?

O que vivi esses últimos meses deste ano? Paixões passageiras, sentimentalismos baratos e desnecessários, esperanças facilmente escondidas atrás de beijos falsos, desilusões tão rápidas quanto as novas conquistas. Foi e está sendo um ano atípico, perante os meus "namoros duradouros" que já permeei no passado. Hoje, não passam de miniséries amorosas de poucos capítulos.

Mas, há uma coisa que faz parte de minha essência e que jamais deixarei para trás: a vontade de ter uma história de amor eterna. Não, não espero pelo meu príncipe encantado em cima de um cavalo branco, já passei da época idealizadora. Apenas procuro alguém que me faça feliz, que eu o faça feliz e que juntos construamos um relacionamento saudável, baseado em amor, confiança e respeito.

Faz 4 dias que saio com um menino e estou me sentindo bem. Ele é esse príncipe encantado? Talvez sim, talvez não, talvez eu demore anos para descobrir, talvez eu perceba amanhã. O importante é que aprendi a viver cada dia como único, sem grandes idealizações, sem montanhas se movendo enquanto precisam ficar paradas. Aprendi a entender o ritmo do coração e a controlar a impulsividade digna de um ariano. Lógico, dá uma vontade louca de falar "casa comigo?" e arriscar no escuro o tiro. Talvez até isso aconteça quando eu menos precisar. Mas o certo é que aprendi a não fazer isso meu sentido de vido: se tornou a consequência, apenas uma consequência.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Na fila sem Madonna



Capítulo 6

- “Why am I standing on a cloudEvery time you’re around…”
- Fácil! Angel, de álbum Like a Virgin- Acertou!
- “You took a pretty pictureAnd you smashed it into bits…”
- Hummm…já sei! Amazing, de Music.
- Caramba, acertou!
- “Your heart is not open so I must goThe spell has been broken?I loved you so…”
- Adoro essa! The Power of Good Bye…Álbum, humm…Ray of Light
- Puta que pariu, tá certo!

O menino de Lindóia surpreendeu a todos durante a madrugada. Em um simples jogo de adivinhação de músicas, ele mostrou ser realmente o maior fã de Madonna que já havíamos conhecido. Não errava uma só música, conhecia todos os álbuns e até mesmo algumas coreografias (em várias versões!!!). A cada nova brincadeira, ficávamos de boca aberta tamanho era o conhecimento do menino, embora tivesse apenas 21 anos.

Ficamos nos divertindo durante horas com a discografia de Madonna. A rua estava silenciosa, pouquíssimos carros passavam. Então um táxi parou do outro lado da rua. Estranhamos a principio. As portas do carro se abriram e um taxista de aproximadamente 140 quilos veio em nossa direção. O clima estava tenso, não sabíamos o que estava acontecendo. Percebemos que havia ficado um senhor dentro do táxi.

- Quem de vocês é o Wanderlei?

Tive que me segurar para não soltar uma violenta gargalhada. A voz do taxista era a mais engraçada que já ouvi em toda a minha vida. Extremamente anasalada, ela tinha um agudo muito forte. Na hora me veio à cabeça os dubladores de desenhos animados. Virei a cabeça e contive o riso. Percebi que os outros meninos também haviam segurado o riso.

- Não há nenhum Wanderlei aqui!
- Mas vocês não estão na fila pro show da Madonna?
- Sim, estamos, mas somos apenas nós cinco. Não há nenhum wanderlei aqui.
Ele nos olhou com cara de desconfiado. Virou as costas e entrou novamente no táxi. Ficou alguns minutos conversando com o senhor que lá esperava e então voltou.

- O senhor que está comigo pagou uma puta grana para um tal Vanderlei ficar na fila para comprar os ingressos. Segundo o cara, ele já estaria aqui acampado faz dias.

Pois é, o senhor do táxi havia sido enganado. Algum pilantra prometera que ficaria na fila, pegou a grana e sumiu no mundo. Era a primeira injustiça e prova de que as pessoas podem ser ruins que presenciaríamos no acampamento. Logo o taxista entrou no carro e saiu cantando os pneus.
A noite voltou a ficar silenciosa. Depois daquela cena ficamos de olhos mais abertos. De repente, sem que percebemos a movimentação, um carro preto parou à frente de nosso acampamento. Com os vidros com filme escuro, não podíamos ver quem estava dentro. Nossos corações gelaram imediatamente. Quatro homens grande, com cara de poucos amigos, vieram em nossa direção. Não tinha outra explicação pelo naipe: eram cambistas!

- Vocês estão aqui para a fila da Madonna?
- Estamos sim!
- Chegaram quando?
- Hoje.
- Hum…

O santista, nesse momento, tomou à frente do grupo e encarou os cambistas. Eu já estava com tudo fechado no meu corpo, tamanho era o medo. O cambista empinou o nariz e ficou cara-a-cara com um dos cambistas.

- O que vocês querem?, perguntou o santista
- Nada não, estamos só olhando! Mas tomem cuidado viu, nessa região as pessoas costumam ser assaltadas, barracas costumam sumir, não é bom ficar aqui viu. Melhor vocês voltarem para casa.

Era a primeira ameaça que receberíamos.Talvez se eu estivesse lá sozinho, com certeza já estaria arrumando as coisas e pegando o primeiro ônibus que aparecesse. Mas o santistas estava lá.

-Mermão, nós vamos ficar aqui até o dia das vendas e nada vai nos tirar.

O clima esquentou. Os cambistas ficaram quietos, pensando. Eu fiquei estático, não movimentei um só fio de cabelo.

- A gente está avisando…, e então deram as costas para barraca, entraram no carro e sumiram na noite. O silencio imperou. Olhamos uns para os outros, sem saber o que falar. Eu estava em choque, nunca havia presenciado tal cena.

- As noites serão complicadas. Vamos abrir os olhos galera, essa foi a só a primeira vez. Isso vai acontecer muitas vezes!, alertou o santista e todos se entreolharam.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Na fila sem Madonna

Capítulo 5



Estávamos agitados. Sabíamos que logo o sono viria, que a noite seria bastante cansativa e que a sensação térmica de virar uma madrugada na rua seria cruel. No entanto, a certeza de estar a poucos dias de segurar o esperado ingresso de Madonna afastava qualquer medo e anseio.

Depois de um dia inteiro nos programando para a noite, a fome bateu. Bobby, o homem simpático que havia ido ao supermercado, voltara com uma caixa enorme do Habbib’s com esfiha, kibe e pastel de Belém quentinhos para saciarmos nossos estômagos. Fingimos que estávamos sentados num parque bem florido (percebemos que teríamos que usar bastante a criatividade para ficarmos acampados na fila), abrimos uma roda na calçada, sentamos no chão sem nos incomodarmos com a falta de conforto e começamos a matar a fome. Antes, propus um brinde: “Às novas amizades que começam aqui e, lógico, à Madonna!”. Tintin!

Mastigadas daqui, risadas dali, e fomos nos conhecendo melhor como em um verdadeiro jantar entre amigos. Não sei se pelo clima de aventura ou pela comida quentinha, eu estava me sentindo muito bem, muitíssimo empolgado com o que estava vivendo. Tudo era tão calmo na rua que até tinha me acalmado.

Porém, foi só o cheiro da comida se espalhar, que teríamos nossos primeiros visitantes. Olhei para trás e vi um cachorro vira-lata vindo em nossa direção. Ele tinha uma roupinha azul, carinha de fome e olhar de “gatinho do Shrek”. Até aí, normal. Fui pegar outra esfiha na caixa e quando me virei a cena era inusitada. Além do cachorro, mais outros quatro cachorros estavam andando lado-a-lado com ele, na mesma velocidade, meio em câmera lenta, cada um com uma roupinha diferente: uma verde, uma amarela, uma vermelha, uma laranja, além da azul que eu já tinha visto. Parecia uma verdadeira boy-band-canina, com cinco cachorros andando juntinhos no mesmo passo. Não tinha como não rir da cena.

Pensei “Todo vira-lata sempre acompanha um mendigo”. Não deu outra! Em seguida, um mendigo apareceu para puxar papo com a gente. Confesso, dificilmente eu gosto de encarar mendigos, tenho um certo receio. Mas desta vez tudo seria diferente. Resolvi encará-lo e…Meu Deus!!! Juro por tudo o que é mais sagrado: era o mendigo mais lindo que eu já vi em toda a minha vida! Loirinho, olhos claros, barbinha por fazer, um rosto quadrado incrível. Não podia ser mendigo, não é possível. Lógico, suas roupas esgarçadas e sujas demonstravam que ele vivia na rua. Mesmo assim não consegui não pensar “ahh, depois de um belo banho (de água quente e de loja) ele super estaria no ponto!”. Fiquei alimentando meu fetiche (?!) enquanto ele puxava assunto.

“Mano, vocês são chique hein, com barraca e tudo na rua” ele disse. “Será que ele acha que somos, sei lá, uma espécie de mendigos modernos providos de teto?”, pensei. Então explicamos que estávamos lá por causa de um show, para comprar ingressos e tal. “É, os seguranças do Credicard são uns chatos, eles bem que podiam deixar vocês dormirem lá dentro (ele ainda era fofo!!!), mas não adianta, eles são cuzões. Uma vez eu pulei o muro porque queria fugir do frio (ohhhh que dóoo!) mas eles me expulsaram de lá dentro”.

Ficamos conversando durante um tempo, oferecemos esfiha para o mendigo bonito e ele recusou pois uma senhora havia dado comida para ele a pouco tempo. Um verdadeiro gentleman. Alguns minutos depois do encontro ele se despediu. “Boa sorte para vocês aí, qualquer coisa to por aqui”, ele disse quando ia embora. Cheguei à conclusão, depois disso, que ainda havia muita coisa interessante nas ruas de São Paulo que eu ainda precisava conhecer.


domingo, 5 de outubro de 2008

Na fila sem Madonna



Capítulo 4

“Eu acho importante organizarmos uma espécie de lista de chegada das pessoas, para ver quem vai acampar aqui, quem vai revezar…”
“Sim, isso é essencial para não ter confusão depois”
“Seria interessante se nós anotássemos o nome de todos que vão fazer o revezamento, dividir por barracas, assim fica mais fácil”
“Ótimo, eu trouxe um bloco de notas, podemos fazer a lista nele!”

E aos poucos, com a colaboração de todos, fui construindo as regras de como seria o acampamento:

1 – Cada pessoa, assim que entrar no acampamento, precisar dar o nome de todos que farão revezamento junto com ela.
2 – Todas as pessoas deverão passar pelo acampamento em algum momento até a venda dos ingressos.
3 – O grupo sempre tem que ter no mínimo um representante na fila. Caso seja verificado que não há ninguém do grupo, o grupo é cortado da lista e vai para o fim da fila.
4 – A partir do momento em que uma nova pessoa resolve se juntar ao acampamento, os grupos em sua frente não podem inserir mais nenhum componente na lista, para evitar injustiças de pessoas entrarem na fila só na hora de comprar os ingressos.
5 – Eu ficaria responsável por passar as regras do acampamento para cada nova pessoa que chegasse, assim como iria cuidar da lista de chegada.


Aos poucos, a lista do acampamento foi sendo formada

No entanto, após a formulação das regras, a primeira dúvida surgiu: “Aonde acamparíamos? Ficaríamos dentro do estacionamento do Credicard Hall? Acamparíamos na Marginal Pinheiros? Acharíamos um local mais apropriado?”. A conclusão de todos do grupo foi a de que o ideal seria acamparmos dentro do próprio estacionamento do Credicard Hall, por uma questão de segurança e frio (que nesse momento, por volta das 18h, já se mostrava bem forte).

Fomos conversar com o chefe da segurança sobre a nossa hipótese e ele foi enfático. “A partir das 20h o estacionamento fecha e eu não posso deixar nenhuma barata ficar aqui dentro! Vocês terão que sair!”. Tentamos articular com ele, com outros seguranças, até mesmo com o bombeiro responsável pelo local. Nada! Teríamos que sair. “Poderíamos te dar uma graninha se você nos deixasse ficar aqui. Você não contaria para ninguém, nós também não contaríamos e todos ficariam felizes”. Nem nossa tentativa de suborno funcionou. O segurança havia sido contratado exclusivamente para tomar conta durante 2 meses do local onde aconteceriam as vendas dos shows. Ele não arriscaria seu salário por meia dúzia de pessoas loucas que desejavam acampar no estacionamento.

A hipótese de ficarmos na Marginal havia sido descartada, pois era muito perigosa para se passar uma noite. Resolvemos dar uma volta em todo o quarteirão do Credicard Hall para encontrarmos um lugar mais apropriado. Depois de muito se discutir, percebemos que o melhor local seria ao lado do portão 3, na parte de trás da casa de shows. Lá, a calçada era mais larga, havia bares e movimento na região, além do frio ser menos intenso.

“Vocês tem certeza que podemos ficar aqui?”, perguntei para os vendedores dos bares que lá trabalhavam. “Olha, já vi diversas vezes pessoas acamparem nessa calçada por causa de shows. A polícia militar e a CET nunca impediram ninguém de ficar aqui. Só é um pouco perigoso, fiquem espertos”.

Perigoso? Eu e o santista fomos conversar com um vigia da região, que trabalhava nas três ruas ao lado do Credicard Hall. Prometemos pagar uma caixinha caso ele pudesse vigiar, durante a madrugada, um pouco do nosso acampamento. O senhorzinho, com uma aparência de uns 50 e poucos anos, concordou com nossa idéia, mas não nos deu muita segurança. Percebemos que estaríamos sozinhos.

Para evitarmos que outra fila se formasse à frente do portão oficial, na Marginal Pinheiros, resolvi elaborar uma espécie de comunicado a mão, que o homem simpático passaria para o computador, e que fixaríamos no portão. O aviso dizia que éramos as primeiras pessoas da fila da Madonna e por uma questão de segurança e temperatura (e, lógico, por não podermos ficar dentro da casa de shows) resolvemos montar o acampamento na parte de trás do Credicard Hall. Também dizíamos que já havíamos falado com os seguranças da casa (o que era verdade) sobre o local do acampamento e que eles estariam aptos a pedir a qualquer pessoa que começasse a acampar no Credicard, que ela se direcionasse para nosso acampamento. Assim, evitaríamos a formação de duas filas.

Resolvemos montar apenas uma barraca. Por volta das 22 horas os bares começaram a fechar, a escola ao lado também fechou, os portões do Credicard Hall se fecharam, as luzes se apagaram. Algumas pessoas do acampamento voltariam apenas no dia seguinte. Seriam apenas 5 pessoas: eu, o santista, o menino de Lindóia, um dos primos e o homem simpático. “Peço que ninguém, nessa primeira noite, durma um só momento. Não conhecemos a região, será uma noite perigosa, estamos em poucas pessoas. Vocês topam?”, sugeri e todos aceitaram.

Teríamos 10 horas pela frente até a reabertura dos portões do Credicard Hall, 10 horas de uma madrugada gelada na cidade de São Paulo, 10 horas de silêncio na rua, 10 horas de um perigo iminente a cada carro que passasse na frente de nossa barraca. Teríamos que controlar nosso sono, nossa paciência e nosso frio. O homem simpático sugeriu ir ao supermercado mais próximo comprar comida e bebida para a gente. Juntei a idéia de ter sono e passar frio e não pensei duas vezes: “Me traz duas latinhas de energético, por favor!”.


quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Na fila sem Madonna


Capítulo 3

Acordei na casa de meu amigo sabendo que seria a última noite dormida no conforto de uma cama. As próximas noites seriam de muito frio, chão duro e o barulho ensurdecedor da Marginal . Tomamos um caprichado café-da-manhã preparado pela mãe de Driko, colocando o restante de torta e salgadinhos na mala e rumamos ao Credicard Hall. Desta vez, descemos no metrô Ana Rosa e pegamos o ônibus que eu pego todos os dias para ir trabalhar (agora eu havia aprendido!). No ônibus, extremamente lotado, descobrimos que teríamos que descer do outro lado da Marginal Pinheiro. Mas nada que mais um ônibus e a integração do bilhete único não pudesse nos ajudar.

Desembarcamos no Credicard Hall por volta das 13h30, aparentemente vazio. Falei “oi” para o chefe da segurança que eu conhecera na noite anterior e nos direcionamos para a tenda montada no estacionamento. Ninguém estava lá, mais uma vez. Colocamos as malas na gande das futuras bilheterias e sentamos no chão. Dez minutos se passaram e nada. Vinte minutos. Meia hora. Nada!



“Vamos montar a barraca?”.
Encontramos uma maneira de passar o tempo e o frio aterrorizante que estava naquela tarde. Mas confesso: não foi tão fácil assim. Muitos e muitos minutos de paciência foram precisos. Muitas risadas e olhadas no manual e conseguimos montar a barraca. Entramos nela para nos protegermos do frio.



Dez minutos. Meia Hora. 1 hora. Nem sinal de vida de mais pessoas. Resolvi dar uma volta no Credicard. Parado, olhando o trânsito da Marginal, percebi uma movimentação em um dos portões. Um homem chegava com diversas malas, sendo auxiliado por um casal. Associei malas + portão de entrada do Credicard = acampamento! “Vocês vieram para acampar na fila dos ingressos da Madonna?”. Fiquei muito feliz com a resposta positiva das pessoas. “Me acompanhem, o acampamento está sendo formado ali dentro. Meu nome é Paulo, sou o 1º da fila”. “Ahhh, então você é o Paulinho, da comunidade da Madonna?!”. Pois é, muitas pessoas já sabiam de minha existência, tal tinha sido o tumulto de minhas mensagens na noite anterior.

Nos apresentemos. Um dos homens, o primeiro a chegar com as malas, tinha por volta de 30 anos, era de Santos e apresentava uma pinta de malandro e jeito de “arranjo encrencas facilmente”. O casal iria emprestar sua barraca para ele. Além deles, um outro homem, com um jeito bastante simpático e sociável, me disse que estava sentado na Marginal desde o começo da manhã e iria se juntar ao grupo. Pouco tempo depois, outros dois meninos chegaram, dois primos, muito simpáticos. Além deles, mais um menino, com uma mala pequena e um sorrisão no rosto, vindo diretamente de Lindóia, cidadezinha divisa com Minas, e uma menina, que não iria ficar naquela noite, mas que estava disposta a entrar na brincadeira. O acampamento enfim começava a se formar.